terça-feira, 11 de agosto de 2015

Quando a relação livre não liberta.



O que se lê o que se entende, o que se quer e o que se vive, está sempre em completa desarmonia.
Os pensamentos/ questionamentos vem muitas vezes com uma necessidade interna de revolução, de fazer acontecer, mais estão sempre a mil passos do que vivemos no momento.
Esses últimos dias tenho ouvido de pessoas amigas, até então sempre muito adeptas ao amor livre/ relacionamento aberto, que estavam fechando o seu relacionamento tomando a monogamia como sua atual forma de se relacionar.
Fiquei observando a minha volta inúmeras pessoas tentando problematizar a monogamia como se essas pessoas não conhecessem de cor os problemas existentes.
Então me recordei de algumas conversas e de alguns textos que li...
Recordei-me de mulheres me dizendo o quanto era difícil estabelecer um relacionamento aberto/livre depois de inúmeros danos emocionais por conta de traições, mentiras, abandono, abalando sua auto-estima, trazendo rivalidades entre mulheres (como o patriarcado nos ensina).
Li textos de mulheres negras dizendo não só do machismo, mais do racismo e da solidão das mulheres negras dentro dessas relações embranquecedoras; li o texto de um homem negro, gay, dizendo sobre o quanto são hipersexualizados pelo tamanho do seu pênis e o quanto se sentem sempre por fora dos ''tidos relacionamento'' para ser o outro. Ouvi de uma amiga travesti o quanto compreende que a estrutura da monogamia sempre esteve a serviço do patriarcado, mas o quanto para ela nesse momento era bom e importante ter alguém que a tratasse de forma tão especial (como ela realmente é) e não apenas um fetiche, ou aquela que não se anda de mãos dadas, que não se assume, e que na maioria das vezes são marginalizadas. Andar de mãos dadas, dormir de conchinha, somar planos com alguém... E o quanto uma outra pessoa surgindo no meio disso tudo pode abalar sua segurança, sua auto estima, por tudo já vivido.
A culpa não é da poligamia, não é do poliamor, das relações livres, do amor livre, a culpa é desse sistema inserido, dessa cultura patriarcal machista, racista, lesbohomotransfóbica. Vivemos sobre monoculturas, capitalismo/individualismo, não é simplesmente acordar e fingir que essas estruturas destrutivas tão inseridas na nossa vida já não existem mais, ou que apenas pelo conhecimento adquirido existe uma ''bomba transformadora'' que apaga as experiências vividas e os traumas colecionados, o: sentir-se deixada (o), o: sentir-se trocada (o), o: sentir-se indesejada (o), o: sentir-se desinteressante, o: sentir-se usada (o)...
Então existem mil pessoas a fim de nos ensinar como amar e como devemos nos relacionar, como se fosse uma receita única, onde cada pessoa tivesse oportunidades e vivências bem semelhantes (só que não), então existe um monte de discurso pronto muito mais do que pessoas interessadas no que você sente e no que tem para falar sobre suas experiências.
Todas as experiências que tive de amor livre, cabia tudo menos o amor, todas as experiências foram fracassadas por que nessa cultura individualista que vivemos cuidar da outra pessoa, responsabilizar-se pela outra pessoa se torna patético e está fora de moda. Se me perguntam se sou monogâmica respondo de prontidão que não, se me perguntam se sou dos ‘’polis’’ e dos amores livres, respondo que emocionalmente não dou conta, então como me relaciono? Acredito que não existem somente esses moldes de se relacionar, acredito em algo fora das ‘’caixas oferecidas’’, acredito que toda forma de se relacionar é um contrato verbal que deve existir no começo e durante toda a relação, é permitir-se de verdade a sentir, é poder e querer se entregar e se responsabilizar, é supor mil situações que podem ou que nem podem acontecer, é poder ter na outra pessoa a confiança e a decência suficiente  para uma relação horizontal e transparente de muita conversa e respeito pelo turbilhão de coisas que se sente, porque cada pessoa carrega consigo suas experiências no qual devemos nos importar sim.
Mesmo todas as relações livres que tive terem me trazido algum dano, atualmente não me relaciono monogamicamente, tento usar de muita conversa, tento não cair nessa liberdade que não liberta e tento fazer dar certo mesmo com toda bagagem que não nos deixa acreditar... Onde isso vai dar nunca saberemos mais a forma como me relaciono, meus mecanismo de defesa faz parte de tudo o que um dia eu vivi e que não posso apagar.     





Estela Pop.