O que se lê o
que se entende, o que se quer e o que se vive, está sempre em completa
desarmonia.
Os
pensamentos/ questionamentos vem muitas vezes com uma necessidade interna de
revolução, de fazer acontecer, mais estão sempre a mil passos do que vivemos no
momento.
Esses últimos dias
tenho ouvido de pessoas amigas, até então sempre muito adeptas ao amor livre/
relacionamento aberto, que estavam fechando o seu relacionamento tomando a
monogamia como sua atual forma de se relacionar.
Fiquei
observando a minha volta inúmeras pessoas tentando problematizar a monogamia
como se essas pessoas não conhecessem de cor os problemas existentes.
Então me
recordei de algumas conversas e de alguns textos que li...
Recordei-me de
mulheres me dizendo o quanto era difícil estabelecer um relacionamento
aberto/livre depois de inúmeros danos emocionais por conta de traições,
mentiras, abandono, abalando sua auto-estima, trazendo rivalidades entre
mulheres (como o patriarcado nos ensina).
Li textos de
mulheres negras dizendo não só do machismo, mais do racismo e da solidão das
mulheres negras dentro dessas relações embranquecedoras; li o texto de um homem
negro, gay, dizendo sobre o quanto são hipersexualizados pelo tamanho do seu
pênis e o quanto se sentem sempre por fora dos ''tidos relacionamento'' para ser
o outro. Ouvi de uma amiga travesti o quanto compreende que a estrutura da
monogamia sempre esteve a serviço do patriarcado, mas o quanto para ela nesse
momento era bom e importante ter alguém que a tratasse de forma tão especial
(como ela realmente é) e não apenas um fetiche, ou aquela que não se anda de
mãos dadas, que não se assume, e que na maioria das vezes são marginalizadas.
Andar de mãos dadas, dormir de conchinha, somar planos com alguém... E o quanto
uma outra pessoa surgindo no meio disso tudo pode abalar sua segurança, sua auto
estima, por tudo já vivido.
A culpa não é
da poligamia, não é do poliamor, das relações livres, do amor livre, a culpa é
desse sistema inserido, dessa cultura patriarcal machista, racista,
lesbohomotransfóbica. Vivemos sobre monoculturas, capitalismo/individualismo,
não é simplesmente acordar e fingir que essas estruturas destrutivas tão
inseridas na nossa vida já não existem mais, ou que apenas pelo conhecimento
adquirido existe uma ''bomba transformadora'' que apaga as experiências vividas
e os traumas colecionados, o: sentir-se deixada (o), o: sentir-se trocada (o),
o: sentir-se indesejada (o), o: sentir-se desinteressante, o: sentir-se usada
(o)...
Então existem
mil pessoas a fim de nos ensinar como amar e como devemos nos relacionar, como
se fosse uma receita única, onde cada pessoa tivesse oportunidades e vivências
bem semelhantes (só que não), então existe um monte de discurso pronto muito
mais do que pessoas interessadas no que você sente e no que tem para falar
sobre suas experiências.
Todas as experiências
que tive de amor livre, cabia tudo menos o amor, todas as experiências foram
fracassadas por que nessa cultura individualista que vivemos cuidar da outra
pessoa, responsabilizar-se pela outra pessoa se torna patético e está fora de
moda. Se me perguntam se sou monogâmica respondo de prontidão que não, se me
perguntam se sou dos ‘’polis’’ e dos amores livres, respondo que emocionalmente
não dou conta, então como me relaciono? Acredito que não existem somente esses
moldes de se relacionar, acredito em algo fora das ‘’caixas oferecidas’’,
acredito que toda forma de se relacionar é um contrato verbal que deve existir
no começo e durante toda a relação, é permitir-se de verdade a sentir, é poder
e querer se entregar e se responsabilizar, é supor mil situações que podem ou
que nem podem acontecer, é poder ter na outra pessoa a confiança e a decência
suficiente para uma relação horizontal e
transparente de muita conversa e respeito pelo turbilhão de coisas que se sente,
porque cada pessoa carrega consigo suas experiências no qual devemos nos
importar sim.
Mesmo todas as
relações livres que tive terem me trazido algum dano, atualmente não me
relaciono monogamicamente, tento usar de muita conversa, tento não cair nessa
liberdade que não liberta e tento fazer dar certo mesmo com toda bagagem que
não nos deixa acreditar... Onde isso vai dar nunca saberemos mais a forma como
me relaciono, meus mecanismo de defesa faz parte de tudo o que um dia eu vivi e
que não posso apagar.
Estela Pop.

Este trecho entrega o limite central do texto: "Todas as experiências que tive de amor livre, cabia tudo menos o amor, todas as experiências foram fracassadas por que nessa cultura individualista que vivemos cuidar da outra pessoa, responsabilizar-se pela outra pessoa se torna patético e está fora de moda."
ResponderExcluirExiste uma gama gigantesca de possibilidades entre "responsabilizar-se pela outra pessoa" e "cabe tudo, menos o amor". Aliás, "ou dois-que-se-tornam-um, ou sexo-e-nada-mais" é uma perspectiva tipicamente monogâmica.
Relações baseadas em um se tornar responsável pelo outro são uma doença. O amor é quando um ser inteiro encontra (e encanta-se por) outro ser inteiro. E a entrega pode ser profunda, sincera e não-monogâmica - desde que cada qual tenha a maturidade de não sentir que o outro é responsável por sua felicidade ou equilíbrio. Até porque dependência não é amor - é doença.
Favor não defina o amor, nem oq é doença nem as formas de se relacionar como se vc portasse o caminho a sabedoria e o conhecimento verdadeiro do "rolê"
ResponderExcluirA sua experiência é a sua experiência e não a verdade!
Ser responsável pelas pessoas não significa dependência, nos relacionamos por inteiro não só pela foda, não que isso seja ruim desde que isso seja acordado!
ResponderExcluirA experiência emocional de um mulher cis, uma mulher negra, uma travesti são bem diferentes e cada qual representada pela sua peculiaridade onde não cabe regras.
Se ler meu blog verá que todos os meus textos são limitados, assim como minha vida é limitada, minha liberdade é limitada e as regras que me cagam são limitadas, pq não dizem de mim e das coisas que vivi e que não se supera apenas em uma sessão de análise (o que é um privilégio) pq vivo e me relacionando com pessoas todos os dias, sou uma sujeita social e não to numa ilha deserta!
O que escrevo não é academicista e meu blog é um: "querido diário... "
Male e porcamente sei escrever!
Teh, muito obrigad pelo seu texto. Eu o acolho com muita alegria. Você foi corajosa, honesta, aberta, e muito perceptiva. E você falou muitas coisas que fazem parte de uma realidade que poucos querem acolher dentro desse discurso de "liberdade". Fiquei curioso, e triste, por exemplo, com a reação de Carlos Cordeiro. Me pareceu uma reação tipicamente masculina: igualar "cuidado" com "dependência", e descartar a responsabilidade pelo outro como doença... Triste. Mas super entendo, porque essa fala dele demonstra que o problema de quem critica a monogamia é não perceber o quanto ela está atrelado ao sistema/cistema, e o quanto a estrutura do mundo se perpetua nas relações não-mono. Sim, é isso Teh, vc apontou muito bem, o problema é individualismo, racismo, sexismo, capitalismo. Vejo por exemplo como Carlos Cordeiro fala sobre "pessoas inteiras"... O que é isso?? Ele acredita que realmente podemos ser independentes?? Mas dá pra entender, homens são socializados para serem servidos, cuidados, e apoiados, e no topo da sua "independência" formulam teorias sobre "indivíduos autônomos, sadios, e auto-felizes"...
ResponderExcluirNão creio no amor livre que não é razoavelmente feminista E marxista... o resto é imaginação fálica...
''sistema/cistema'' arrasou Carlos!
ExcluirObrigada pelo entendimento, compreensão e análise!